O uso das fontes numismáticas para o estudo
da antiguidade tardia: a sociedade romana e sua religiosidade.
Lalaine Rabêlo[1]
Ao longo da história, os séculos III, IV e V foram descritos como período
de ruína do Império Romano. Porém quando analisamos profundamente, este período
denominado por vários historiadores como Antiguidade Tardia, notamos que esta
visão é um tanto equivocada, pois apesar dos períodos de crise, há também renovação
política e cultural como bem destaca Grein:
[...]
nessa fase de transição entre a Antiguidade Clássica e a Idade Média é que
encontramos a Antiguidade Tardia, apresentada muito mais como um momento de
permanências e transformações e que atinge principalmente os campos político,
cultural, econômico, religioso e social e que viria imprimir uma nova face ao
mundo mediterrânico ocidental pós-romano. (GREIN, 2009, p. 110).
Este termo vem sendo adotado por vários estudiosos brasileiros e
estrangeiros como o historiador Peter Robert Lamont Brown (Princeton University),
John Bryan Ward-Perkins (University of Oxford), Margarida Maria de Carvalho
(UNESP/Franca), Claudio Umpierre Carlan (UNIFAL-MG), Carlos Augusto Ribeiro
Machado (UNIFESP), Pedro Paulo Funari (UNICAMP), Paul Veyne e Jean Pierre
Carrié (École des Hautes Études em Sciences Sociales), Gilvan Ventura da Silva
(UFES), Ana Teresa Marques Gonçalves (UFG), Norma Musco Mendes (UFRJ), dentre
outros.
Por outro lado, devemos ressaltar que entre estes historiadores há
divergências quanto aos séculos que este termo abarca.
No que se refere à cultura, entendemos que esta tem conceitos múltiplos.
No entanto, acreditamos que a cultura abrange todas as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo.
Ou seja, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano
concreto ou no plano imaterial, desde artefatos e objetos até ideias e crenças
(SILVA, Kalina Vanderlei, SILVA, Maciel Henrique, 2005, p.85).
Neste sentido, compreendemos que os aspectos culturais abrangem a
religiosidade romana que sofre uma transição do paganismo para o cristianismo,
e conseqüentemente o fortalecimento do último ao longo dos anos. Mesmo com a
tentativa do imperador Juliano (361 – 363 d.C.) de trazer o paganismo ao papel
central, após sua morte e com a ascensão de imperadores cristãos como Joviano
(363 – 364 d.C.), Valentiniano I (364 – 375 d.C.), Valente (364 – 378 d.C.),
dentre outros, o cristianismo se fortalece e se torna religião oficial do
império com Teodósio, o grande.
Por meio das fontes numismáticas, podemos observar aspectos do período,
dentre eles a religiosidade. Através da imagem a baixo, observamos uma mescla
de elementos cristãos e pagãos, como a deusa Niké (Vitória) da tradição pagã
grega, coroando Valentiniano I. O Imperador segura com a mão direita o
estandarte, o vexillum que representa a força e a autoridade suprema, que
possuí ainda o sinal de Constantino PX, iniciais da palavra Cristo em grego
(Crismon ou Quirô). Observamos ainda ao seu lado a cruz cristã.


Fonte: Museu
de Berlin
Do seu lado direito a cruz cristã, do lado esquerdo a deusa Vitória. Através
destas observações, percebemos que mesmo o cristianismo conquistando vários
adeptos no Império, inclusive vários imperadores ao longo dos anos, não há
extinção dos elementos pagãos, havendo assim um sincretismo religioso. Estes
elementos sobrevivem em conjunto, a antiga cultura pagã ainda sobrevive por
meio de símbolos e costumes adquiridos ao longo dos séculos. Ou seja, não há uma
total negação da antiga religião, o que há é assimilação.
Através do estudo das fontes escritas e materiais, percebemos vários aspectos
da sociedade romana que estava em transformação. Neste caso, vemos a importância
das moedas como fonte. As imagens podem nos trazer aspectos interessantes da
cultura, não somente a romana mas também a nossa, que aliás, absorveu vários
costumes romanos.
Enfim, o ser humano é um animal simbólico, as imagens expressam sentimentos de um grupo, uma ideologia, legitima o poder de um determinado governante. Deste modo, observamos a importância de estudar a imagética em geral, seja para contribuir para
o entendimento das sociedades antigas, ou para entender a nossa cultura, a
nossa sociedade.
Para
saber mais:
Fontes
Numismáticas
Coleção Numismática do Museu de Berlim
Disponível em: < http://www.smb.museum/ikmk/index.php?lang=en>
Último acesso em: 27 de
janeiro de 2012.
Textos
de Internet
CARLAN, Cláudio Umpierre; RABÊLO, Lalaine. Cultura e poder em Roma: o modelo da
Antiguidade Tardia. Revista Eletrônica Antiguidade Clássica, v.7, n.1, ano IV,
2011. Disponível em: <www.antiguidadeclassica.com>
Último acesso em: 11 de dezembro de 2011.
GREIN, Everton. Translatio ad mundus: a transformação do mundo romano e a
antiguidade tardia. Elementos teóricos para uma
perspectiva historiográfica. In: História da Historiografia. Ouro Preto /
Edufop, 2009, número 3, setembro 2009, 263pp.
Acesso em: 16 de novembro de 2011.
Catálogos e
Dicionários
CHEVALIER, Jean.
GHEERBRANT, Alain. Dicionário de
Símbolos. 8a. ed. Tradução: Vera Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Ângela
Melim, Lúcia Melim. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1994.
SILVA, Kalina Vanderlei, SILVA, Maciel Henrique. Dicionário
de conceitos históricos. 2ª edição. São Paulo : Contexto, 2009.
Referências
BROWN, Peter. O Fim do Mundo Clássico. De Marco
Aurélio a Maomé. Tradução de Antônio Gonçalves Mattoso. Lisboa: Editorial
Verbo, 1972.
[1] Graduanda
em História pela Universidade Federal de Alfenas e bolsista de iniciação
científica pela FAPEMIG.
Mexe com a lorice! =P
ResponderExcluirE junta esses detalhes que tem nas moedas com mais algum resquício arquitetônico, artístico, etc e dá pra ter uma visão ainda maior da coisa. ;)